Por Rômulo Castro, vargemgrandense de nascimento, criação e coração.
Von Veigh, Pirâmide e Chapéu da Bruxa cercam a Vargem Grande, por onde descia os tropeiros vindos das Terras Frias, atual Campo do Coelho, subindo pela picada do Cardinot passando por trás da Pirâmide, alcançando a estrada Cascatinha-São Lourenço e descia na altura do Chapéu das Bruxa na Rua Tupiniquins em direção ao centro do Cônego onde era a sede da antiga fazenda. Hoje esse caminho está impossibilitado porque tem mais que uma pedra no meio do caminho, mais um sítio no meio da antiga estrada dos tropeiros. Dali os lavradores de Campo Coelho comercializavam seus produtos no centro de Nova Friburgo.

Em frente ao córrego que desce do alto da Vargem Grande e desemboca na via expressa, paralela a rua Maria Francelina Barrosa, onde recentemente funcionava o mercado Nosso Armazém, existia o bar e local para jogar bocha do Clube do Lavrador que ficava em frente e que foi destruído por uma queda de barreira. O bar e a bocha ainda existiam no inicio dos anos 90.
A Vargem Grande faz parte do bairro Cônego que pertence ao primeiro distrito de Nova Friburgo. A região era denominada de Fazenda do Cônego, propriedade que pertencia a Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo. A sede da fazenda existe até hoje, ao lado do Colégio Estadual Augusto Spinelli. Até a década de 1830, após a subida da Serra da Boa Vista (Cachoeiras de Macacu) através da Castália, a entrada em Nova Friburgo era feita pela Fazenda do Cônego, descendo pela picada que vinha da estrada São Lourenço-Cascatinha. Há quem afirme que a localidade tem esse nome pelo fato de um cônego, amigo do barão, ter se hospedado em sua propriedade por muitos anos.
A Fazenda do Cônego possuía uma área de terras de 1.200 alqueires, parte em mata e outra parte em cultivo. Havia uma casa, um moinho, duas senzalas com uma enfermaria em uma delas e uma cozinha para os africanos escravizados.
Existia ainda uma casa para os trabalhadores livres, “rancho, galinheiro, pombal, estrebaria, ceva e viveiro para pássaros. Havia ainda atividade econômica voltada para a construção civil, com uma olaria com forno, estufa, engenhos movidos por água para serrar, máquinas para aplainar, para fabricar tijolos e tubos, para purificar e amassar o barro, para prensar ladrilhos, para tornear ferro e madeira, além de outros engenhos, entendendo-se a palavra engenho como máquina. Havia trilhos da estrada de ferro e um carro costumava partir da Fazenda do Cônego até a Vila de Nova Friburgo possivelmente para transportar o material de construção fabricado na propriedade. O bairro de Olaria deve o seu nome à atividade de fabricação de telhas, tijolos e canos em cerâmica na Fazenda do Cônego.” (https://avozdaserra.com.br/colunas/historia-e-memoria/fazenda-do-conego)
O Cônego é banhado pelo rio de mesmo nome. O Rio Cônego nasce no maciço do Caledônia, recebe águas de alguns córregos, e se encontra com o Rio Santo Antônio em frente a Igreja Luterana, no Paissandu, onde forma o Rio Bengalas, que desagua no Rio Grande e depois no Paraíba do Sul.
A fazenda do barão de Nova Friburgo foi desmembrada em diversos sítios. No centro da Praça do Cônego, em frente a Igreja de Santana, tem o busto do lavrador José Pires Barroso, proprietário de um desses sítios. Desde a Várzea Grande até a Grota Funda ele possuía uma imensa propriedade rural.
Barroso plantava chuchu, abóbora, inhame, batata doce, frutas, hortaliças e se dedicava a apicultura e a criação de carpas. Na década de 1950 passou a cultivar flores, eucaliptos e trigo.
A família Cunha foi também um dos mais importantes produtores rurais nessa região. Até a metade do século 20 a maior parte da população de Nova Friburgo vivia na área rural, a mudança para o uma cidade industrial havia se iniciado com o processo de industrialização feito pelos industriais capitalistas de origem alemã que construíram a Fábrica de Rendas Arp, Ypu e Filó.
Denominado de arraial na década de 1950, a Fazenda do Cônego possuía uma população de lavradores e passou a ter uma divisão de lotes dos antigos lavradores com relativamente bastante terra, como dos Barrosos, Pires e Silva. Também foram atraídas famílias para trabalhar na ARP, outras categorias de trabalhadores industriais, como ferroviários, “colonos” para trabalhar nas plantações dos sítios, da Família Barroso e Silva, se construindo armazéns para abastecer o ainda sub-bairro. Flores de corte, eucaliptos e hortaliças eram produzidos nos sítios abaixo do Von Veigh, Pirâmide e Chapéu da Bruxo e entre a rua tupiniquins, Aurora Silveira e Maria Francelina Barroso.
Ao lado do Armazém Santo Antônio (hoje do Niltinho e João Luiz), no número 180, funcionava o depósito de flores e ao lado o primeiro armazém que deu origem ao Armazém Santo Antônio, organizado por um dos primeiros moradores do local, o ferroviário Antonio Pereira de Castro e a filha de camponês e operária da ARP Julieta Knupp, vinda de Barra Alegre, Bom Jardim, passando pela Ponte da Saudade e se estabelecendo no pequeno povoado.
Com a divisão de propriedades passou-se também ao cultivo de hortaliças, como agrião, alface, chicória e temperos na região que descia do antigo caminho das tropas na rua tupiniquins e na rua Aurora Silveira e nas Várzeas dessa rua. Depois dos anos 60 as modestas habitações dos lavradores, colonos e novos moradores de origem operária foram convivendo com residências de veranistas cariocas e niteroienses que escolheram o Cônego para passar as temporadas de férias. O Campo de Futebol onde hoje tem as casas de número 175, 183 e 171 foi destruído.
Na próxima parte falaremos das primeiras famílias da Vargem Grande, das novas moradoras e novos moradores que foram chegando nos início dos anos 50, das famílias de colonos e outros trabalhadores que foram chegando de outras partes do Estado como de Itaocara.


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